quinta-feira, 10 de julho de 2008

O terraço-jardim

Os terraços são uma das principais características das cidades islâmicas. Marraquexe não foge à regra. Aliás, "o que caracteriza as cidades da civilização islâmica é a sua semelhança, desde o Atlântico ao Golfo Pérsico" (Goitia, Op. cit., p. 59).
O terraço-jardim será também um dos "Cinco Pontos" da (Nova) Arquitectura Moderna, formulados por Le Corbusier (exposição fundamental no CCB, até 17 de Agosto) em 1926, juntamente com o desenho livre da fachada e da planta, com a elevação dos edifícios através de pilotis (piso térreo vazado) e com a utilização de janelas em fita/corridas.
O fascínio de Le Corbusier pelos terraços não deverá ter sido alheio à sua importante "Viagem ao Oriente" que realizou em 1911, tendo visitado a Acrópole de Atenas e Istambul. Considerava esta última o "paraíso terrestre", em contraste com Nova Iorque, "o cataclismo" (Le Corbusier. Urbanismo, Martins Fontes, 1992, p. 55; edição original: 1924).
Os terraços são, simplesmente, o lugar onde a cidade encontra, e enfrenta, o céu e a natureza:
"Pour Le Corbusier, le toit-jardin a toujours été conçu comme un espace expérimental. (...) Le travail projectuel sur «la chambre à ciel ouvert» représentée par le toit-terrasse, est toujours considéré para Le Corbusier comme un point d'orgue. C'est le premier lieu de l'architecture avant le grand vide. Un espace du détachement, de la méditation et de la rêverie, à partir duquel l'homme peut contempler la lutte de la nature contre la machine urbaine" (Sbriglio, Jacques. Immeuble 24 N.C. et Appartement Le Corbusier, Fondation Le Corbusier / Birkhauser, 1986, p. 62).

quarta-feira, 9 de julho de 2008

O pátio e a vida de harém

"A vida de harém condiciona a organização da casa muçulmana, concebida como um recinto hermeticamente fechado ao exterior e, o que é mais peculiar, completamente disfarçado. Vagueando pelas tortuosas ruelas árabes, cheias de cotovelos e corredores, nunca se sabe se bordejamos os muros de um grande palácio ou a casa miserável onde se amontoam os deserdados. Tudo está de tal maneira imbricado, revolvido e confuso que a camuflagem é perfeita. Uma vida totalmente reclusa, sem qualquer aspecto exterior, dá lugar a uma difícil cidade sem fachadas, qualquer coisa completamente oposta à cidade clássica [Grega e Romana], onde o cenário e a fachada eram o principal. Uma tal situação tinha de levar fatalmente a organizar a vida à volta do pátio" (Goitia, Fernando. Breve História do Urbanismo, Editorial Presença, 2003, pp. 13-14).

O primado da porta

"Nas cidades muçulmanas faltam a ágora, os locais para as assembleias de cidadãos, os circos, teatros, anfiteatros, estádios, etc. A única coisa que conservaram foram as termas, convertendo-as em organizações mais modestas e estritamente dedicadas aos banhos (...). Em contrapartida, existe a porta, que é um elemento primordial da cidade muçulmana (...). Estas portas, além de um valor simbólico preponderante, tinham também um carácter funcional. Não se tratava em muitos casos, de simples portas, mas de verdadeiras composições arquitectónicas, às vezes de grande complexidade. A porta costumava ser dupla; a primeira dava passagem para um espaço amplo, utilizado como pátio de armas. Atravessando este pátio chegava-se à segunda porta, pela qual, por fim, se entrava na medina" (Goitia, Fernando. Breve História do Urbanismo, Editorial Presença, 2003, pp. 60-61).

A praça acidental

"A porta constitui uma espécie de gonzo entre o espaço exterior e interior da cidade. Frequentemente, é nas imediações das portas que se estabelecem os «souks» ou mercados, que constituíam as chamadas praças de arrebalde (...). A praça de armas, ou pátio entre duas portas, costumava ser, até certo ponto, o substituto da ágora ou da praça pública. Podemos, no entanto, assistir hoje a este fenómeno, no Bab-segma de Fez [ou na Praça D'jemma el Fna de Marraquexe], em cujo pátio a multidão se apinha para ver os encantadores de serpentes, ouvir os recitadores de contos e histórias, os músicos e cantores" (Goitia, Fernando. Breve História do Urbanismo, Editorial Presença, 2003, p. 61).